Brazil Brief | Macroeconomia, eleições e investimentos no Brasil

Em um cenário global marcado por juros ainda elevados, maior aversão a risco e crescente seletividade de capital, investidores estrangeiros têm privilegiado mercados capazes de oferecer escala, previsibilidade regulatória e estruturas institucionais resilientes. No Brasil, esse debate ganha centralidade em um momento de transição do sistema tributário, amadurecimento regulatório em setores-chave e aproximação do ciclo eleitoral — fatores que ampliam tanto as oportunidades quanto os riscos de investimento.

A reforma tributária, ao unificar tributos sobre o consumo e reduzir a complexidade histórica do sistema, tende a simplificar estruturas societárias, diminuir custos de conformidade e reduzir incertezas jurídicas no longo prazo. Em paralelo, a consolidação de marcos regulatórios mais sofisticados, combinada a práticas de governança, compliance e diálogo institucional com agências reguladoras, tem fortalecido a capacidade de projetos no Brasil atravessarem ciclos macroeconômicos mais voláteis sem perda de atratividade. Em setores como infraestrutura, energia, financeiro e tecnologia, esse conjunto de fatores tem ampliado a previsibilidade operacional e a confiança do capital internacional.

Investimentos bem-sucedidos no Brasil hoje exigem não apenas retorno esperado, mas estruturas capazes de absorver oscilações macroeconômicas, mudanças regulatórias e ciclos políticos sem comprometer a viabilidade do projeto. A combinação entre escala de mercado, instituições independentes e estabilidade normativa cria um ambiente mais robusto do que muitas vezes se percebe à distância.

É nesse contexto que convidamos José Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos, PhD em economia pelo MIT e professor titular aposentado da PUC-Rio, para analisar os principais vetores que devem moldar o cenário brasileiro em 2026. A seguir, Camargo examina o quadro macroeconômico, os efeitos do ciclo monetário global, os impactos da reforma tributária e os setores com melhor equilíbrio entre risco e retorno para o investidor internacional. Com a palavra, José Camargo.

1. Como você avalia o cenário macroeconômico brasileiro para 2026 e quais são os principais fatores que hoje moldam a percepção do investidor estrangeiro sobre o país?

JC: O ano de 2025 consolidou um quadro macroeconômico marcado por fortes desequilíbrios de política econômica, mas por uma resiliência cíclica superior à antecipada no início do ano. A combinação entre política fiscal persistentemente expansionista, política monetária significativamente contracionista e um ambiente externo relativamente favorável resultou em crescimento econômico robusto, mercado de trabalho apertado, desaceleração gradual da inflação e, ao mesmo tempo, deterioração relevante das métricas fiscais.

O câmbio teve papel central no processo desinflacionário. Entre janeiro e agosto de 2025, o real se valorizou cerca de 15%, movimento associado ao elevado diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos e, sobretudo, à depreciação global do dólar. A política comercial do governo Trump e as críticas à condução da política monetária pelo Federal Reserve aumentaram a percepção de risco em relação à moeda americana, levando a uma queda expressiva do DXY (índice do valor do dólar em relação às seis principais moedas) e favorecendo moedas e mercados de países emergentes.

Neste contexto, o ano de 2025 foi marcado por um equilíbrio macroeconômico frágil. A economia cresceu de forma resiliente, com mercado de trabalho apertado e inflação em desaceleração, ainda que acima da meta. Em contrapartida, a deterioração fiscal avançou, com elevação da dívida pública a 79,5% do PIB, taxa de juros nominal de 15,0% ao ano e taxa de juros real ex-ante acima de 10,0% ao ano. A ausência de uma estratégia crível de estabilização da dívida manteve o risco fiscal elevado, aumentando a sensibilidade dos ativos domésticos a choques políticos e ao ciclo eleitoral.

O ano de 2026 se inicia em um ambiente de elevada incerteza, tanto no plano doméstico quanto internacional. No Brasil, a continuidade da deterioração fiscal observada desde o início do governo Lula III, aliada às dúvidas crescentes sobre a sustentabilidade da dívida pública, deve manter o risco fiscal elevado ao longo do ano. A esse quadro soma-se o ciclo eleitoral, que tende a amplificar a volatilidade das principais variáveis financeiras diante das incertezas em torno da sucessão presidencial.

No cenário externo, os principais vetores de risco incluem a agenda econômica do governo Trump, a nomeação de um novo presidente do Fed potencialmente mais leniente com a inflação, as tensões geopolíticas globais e a desaceleração estrutural da economia chinesa.

Assim como em 2025, o comportamento do dólar global será determinante para a trajetória do real e dos ativos domésticos. Um cenário de continuidade da depreciação do DXY, em um ambiente ainda marcado por condições financeiras internacionais relativamente favoráveis, pode reproduzir no início de 2026 uma dinâmica semelhante à do ano anterior, com maior apetite por risco global favorecendo moedas emergentes e sustentando os preços dos ativos locais — mesmo diante de fragilidades fiscais internas.

O risco fiscal e as eleições terão papel de destaque. Nossas projeções apontam para um crescimento do PIB de 2,1% no ano de 2026, muito próximo aos 2,3% estimados para 2025, sustentado por uma agenda econômica expansionista.

Quanto à dinâmica inflacionária, nossa projeção indica desvalorização da taxa de câmbio para R$ 5,72 por dólar no final do ano, e taxa de inflação de 5,0% em 2026, contra 4,3% em 2025. A inflação reacelera devido às medidas de estímulo à demanda e à depreciação cambial. Dessa forma, a política fiscal contrabalanceia, o aperto monetário promovido pela autoridade monetária.

Esperamos que o Banco Central inicie o ciclo de corte de juros em março, com uma redução de 25 bps na taxa Selic. Caso nosso cenário base se concretize, a inflação deve acelerar no final do primeiro semestre de 2026, fazendo com que o Banco Central interrompa o ciclo de corte de juros. Projetamos que a taxa Selic encerrará 2026 em 13,0%, com ciclo de corte interrompido devido à escalada da inflação no segundo semestre.

Com juros reais elevados, o custo do serviço da dívida seguirá pressionando as contas públicas. Projetamos que a dívida bruta alcance cerca de 84% do PIB em 2026, acumulando aumento próximo de 12 p.p. ao longo do governo Lula III. Nossas estimativas indicam ser necessário um superávit primário entre 3,0% e 3,5% do PIB para estabilizá-la — bem acima da meta oficial de 0,25% do PIB.

O processo eleitoral adiciona riscos relevantes ao panorama de 2026. A elevada rejeição aos principais candidatos sugere uma disputa polarizada e acirrada, com risco não desprezível de derrota do atual presidente. Caso esse cenário ganhe força, há risco de adoção de novas medidas fiscais expansionistas em 2026, agravando a trajetória das contas públicas. Por outro lado, a simples expectativa de alternância de poder poderia reduzir prêmios de risco, pressionando para baixo a taxa neutra de juros e o câmbio, com efeitos desinflacionários à frente.

Mesmo no cenário de reeleição do Presidente Lula, avaliamos que a agenda econômica não deve sofrer alterações significativas. Divergimos da visão mais consensual de que um ajuste fiscal estrutural seria inevitável em qualquer administração. A prioridade, em nossa avaliação, em um eventual governo Lula IV, deve ser a consolidação de um herdeiro político, preservando o modelo de crescimento baseado em estímulos à demanda via política fiscal.

Esperamos aumento do prêmio de risco e maior cautela do mercado, com possibilidade de pressão de depreciação do real. Algo em linha com o episódio do fim de 2024, quando o câmbio passou de R$ 5,46 para R$ 6,29 por dólar em cerca de dois meses.

As eleições terão papel fundamental na determinação do câmbio ao longo do próximo ano, sendo o principal fator que pode comprometer nossas projeções cambial e de inflação no cenário base e, consequentemente, a política monetária a ser adotada pelo BC a partir de 2026.

Em suma, a questão é: qual movimento se mostrará mais forte? A valorização do real frente ao dólar, devido a uma possível postura mais leniente do Fed, ou as pressões do cenário político interno?

O ajuste observado no fim do ano passado, logo após o anúncio da candidatura de Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, é um indicativo da sensibilidade do mercado ao cenário eleitoral e pode antecipar a dinâmica de preços caso as pesquisas passem a atribuir maior probabilidade à reeleição do presidente Lula. Mesmo com um pano de fundo externo potencialmente mais favorável, esperamos que o componente doméstico prevaleça no curto prazo.

2. Como o investidor estrangeiro pode aproveitar o contraste entre juros ainda elevados no Brasil e o alívio monetário global nos próximos anos?

JC: Diante do cenário apresentado acima, o investidor deverá estar preocupado com dois fatores importantes. Por um lado, a política monetária americana terá um efeito importante sobre o valor do dólar em termos globais. A manutenção de uma política monetária leniente deverá gerar valorização das moedas de países emergentes e vice-versa.

Ao mesmo tempo, as taxas de juros dos países emergentes, em especial, no Brasil, favorece o carry trade, tornando o investimento em títulos públicos destes países relativamente atraentes, o que deverá intensificar a tendência a valorização de suas moedas em relação ao dólar.

3. De que forma a reforma tributária e a perspectiva de energia mais barata no cenário internacional podem melhorar a atratividade de projetos produtivos e de infraestrutura?

JC: O ano de 2026 é percebido como um teste da Reforma Tributária, sendo implementada paulatinamente, com pouco efeito em 2026. Entretanto, uma vez implementada, terá o efeito de introduzir o Imposto sobre Valor Adicionado (IVA) sobre consumo (bens e serviços), simplificar o sistema tributário, o número de impostos e a legislação.

Dado o grande número de exceções, a alíquota básica do Imposto sobre Valor Adicionado (IVA) será elevado, em 27,5%. Em princípio a estrutura de incidência dos impostos deverá sofrer importante mudança, com aumento da tributação de serviços e redução da tributação de bens, em especial, de produtos industriais. Por outro lado, pelo menos teoricamente, a carga tributária deverá permanecer estável.

4. Na sua visão, quais os setores brasileiros devem apresentar o melhor equilíbrio entre risco e retorno para o investidor global nos próximos anos?

JC: Setores que devem ter melhor relação risco-retorno são infraestrutura, principalmente saneamento, portos e aeroportos, rodovias e energia, especialmente renovável. Apesar dos elevados diferenciais de juros entre o Brasil e os Estados Unidos, é importante ter especial atenção para a sustentabilidade da dívida pública. O cenário eleitoral poderá ser um fator de instabilidade e grande volatilidade ao longo do ano.