Brazil Brief | Reposicionamento geopolítico da Europa e o fortalecimento do Brasil como parceiro estratégico

A assinatura dos acordos entre o Mercosul e a União Europeia e entre o Mercosul e a EFTA não representa apenas redução tarifária. Trata-se de um movimento de convergência regulatória e de reposicionamento institucional em um momento em que grandes economias reavaliam suas políticas comerciais. Em um ambiente marcado por maior seletividade e por uso estratégico de tarifas, acordos amplos e juridicamente estruturados tornam-se instrumentos de previsibilidade.

O avanço dessas negociações — após mais de duas décadas de tratativas no caso da União Europeia — insere o Brasil em uma arquitetura comercial que privilegia regras claras, integração de cadeias produtivas e segurança jurídica para fluxos de investimento. Ainda que o acordo com a UE esteja em fase de ratificação e sujeito a debates internos no bloco europeu, sua formalização já influencia decisões empresariais de médio e longo prazo.

“O Brasil mantém uma postura diplomática de neutralidade e preserva relações comerciais relevantes com os Estados Unidos, a China e a Europa. Em um cenário de maior uso de tarifas por algumas economias, fortalecer acordos com outros blocos é uma estratégia de diversificação e previsibilidade”, afirma Camila Borba Lefèvre, sócia da área Societária/M&A do Vieira Rezende.

Do ponto de vista setorial, os efeitos vão além do agronegócio. A redução progressiva de tarifas e a equiparação de condições regulatórias tendem a impactar segmentos como indústria química e farmacêutica, máquinas e equipamentos, eletrônicos e transporte. A integração das cadeias produtivas ganha densidade, sobretudo porque parte relevante da indústria brasileira depende de insumos e tecnologia importados. “A redução tarifária melhora a competitividade local e pode estimular investimentos produtivos no país, inclusive em setores industriais de maior valor agregado”, destaca Lefèvre.

Há ainda dimensão institucional relevante. O acordo amplia o acesso de empresas europeias a compras públicas e licitações no Brasil, criando um ambiente mais simétrico entre investidores nacionais e estrangeiros. Em um momento de expansão da agenda de infraestrutura, essa convergência regulatória reforça a previsibilidade e reduz as assimetrias.

A agenda ESG também se insere nessa equação. A UE tem incorporado exigências crescentes de rastreabilidade, sustentabilidade e descarbonização às suas políticas comerciais. O Brasil, com matriz elétrica majoritariamente renovável e arcabouço ambiental estruturado, encontra-se em posição competitiva para atender a essas exigências. “Empresas que produzem no Brasil, utilizando energia limpa e cumprindo a regulação ambiental, tendem a ter vantagem no acesso ao mercado europeu”, avalia Lefèvre. A sustentabilidade deixa de ser apenas compromisso reputacional e passa a integrar a estratégia comercial.