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Como as eleições 2026 podem redesenhar o ambiente de negócios no Brasil

O resultado das eleições de 2026 será apenas uma das variáveis a definir o ambiente institucional e de negócios brasileiro nos próximos anos. Para além da disputa presidencial, a composição do Congresso, a capacidade de articulação entre Executivo e Legislativo e os sinais dados pelos candidatos ao longo da campanha serão determinantes para a governabilidade e para a previsibilidade das agendas econômica e regulatória.
Nesta entrevista, o cientista político Bruno Kazuhiro analisa os possíveis impactos do cenário eleitoral sobre a relação entre os Poderes, a continuidade de agendas como a Reforma Tributária e as concessões de infraestrutura e os projetos de longo prazo nos estados. Para investidores estrangeiros, o desafio, segundo o especialista, é distinguir o ruído próprio do período eleitoral dos movimentos capazes de sinalizar mudanças mais profundas no ambiente de negócios.

O que o cenário de polarização representa para a governabilidade e a previsibilidade institucional no próximo ciclo presidencial?

Existe intenção de voto mais ao centro. O crescimento das menções ao escritor Augusto Cury mostrou que há parcela significativa de brasileiros cansados da polarização. Contudo, não há viabilidade eleitoral fora dos extremos neste momento. A polarização consolida os votos em duas candidaturas principais, o que impede a chegada de uma terceira via ao segundo turno. Sem dúvida, o Parlamento nacional seguirá dividido, com dificuldades para construir consensos.

Como os demais palanques e disputas devem impactar a composição do Congresso Nacional a partir de 2027 e a viabilidade de concretização da agenda econômica?

Vença quem vencer as eleições presidenciais, o Congresso continuará polarizado, com uma oposição bastante atuante contra o governo de plantão e exigindo muita articulação para aprovar cada projeto. Além disso, as emendas parlamentares impositivas conferem maior independência ao Legislativo frente ao Executivo, tornando as negociações ainda mais complexas. Nesse cenário, qualquer presidente precisará, para governar, não apenas da sua base aliada, mas também dos partidos do chamado Centrão.

Para o investidor que busca previsibilidade de longo prazo, até que ponto a implementação da Reforma Tributária e a agenda de concessões dependem do resultado das urnas?

Justamente devido à maior independência de que o Congresso dispõe hoje, certas agendas avançam por força do próprio Legislativo, sem serem necessariamente impulsionadas pela Presidência da República. É o caso da Reforma Tributária e das concessões em diversos setores. O governo da ocasião detém força para introduzir emendas e aprimoramentos, muitas vezes de cunho ideológico, mas deixou de ser o protagonista único no estabelecimento da agenda pública, como ocorria em décadas passadas.

São Paulo apresenta um cenário polarizado e sem a presença do centro tradicional. O que esse arranjo pode significar para a continuidade dos projetos estaduais?

São Paulo atua como motor econômico do Brasil há muito tempo em razão de diversos fatores, como a lógica desenvolvimentista mantida por sucessivos governos estaduais e pelo mercado. Tarcísio de Freitas apresenta favoritismo e deve manter a administração estadual alinhada ao setor privado, dando continuidade ao modelo praticado desde a década de 1990. O estado não aceita estagnação, independentemente do governante, mantendo a preferência eleitoral na centro-direita.

Em que medida a nacionalização da disputa no Rio de Janeiro pode afetar a continuidade de projetos e parcerias de longo prazo no estado?

A eleição de um governador no Rio de Janeiro que tenha sido adversário do presidente eleito durante o pleito pode acarretar redução dos repasses e investimentos federais no estado. Diferentemente de São Paulo, o Rio de Janeiro possui contas públicas bastante frágeis e depende do aporte federal para executar obras de infraestrutura e políticas públicas essenciais.

Como o investidor estrangeiro deve distinguir o ruído eleitoral – como mudanças nas pesquisas e crises envolvendo candidatos – de movimentos que de fato sinalizam uma mudança institucional mais profunda?

O cenário brasileiro é muito volátil e pode induzir o investidor a se perder em uma espécie de “fumaça” que turva as avaliações. Em vez de observar a velocidade e a frequência das ondas, corre-se o risco de se apegar apenas à espuma que elas geram. A forma como o atual governo gerencia os gastos públicos já indica suas prioridades em uma eventual reeleição. Por outro lado, um possível governo de Flávio Bolsonaro tende a ter diretrizes de gestão econômica semelhantes às de seu pai, embora, talvez, com uma narrativa cotidiana menos agressiva. Ademais, os indicadores macroeconômicos e fiscais deixam claro o nível de ajuste necessário nos gastos para qualquer governante que pretenda reconduzir o país ao equilíbrio. Em suma, para escapar dos ruídos eleitorais, é fundamental priorizar dados e evidências em detrimento de notícias sensacionalistas e narrativas políticas.

Quais sinais o investidor estrangeiro deveria monitorar com mais atenção para avaliar a segurança jurídica de suas operações e a previsibilidade do ambiente de negócios?

Embora as pesquisas de intenção de voto sejam úteis, outros indicadores são igualmente determinantes, tais como as declarações dos candidatos em sabatinas e debates sobre temas sensíveis, os nomes anunciados para o primeiro escalão em caso de vitória e os apoios internacionais formalizados. Além disso, a composição partidária e ideológica do Congresso Nacional e o grau de politização do Poder Judiciário constituem balizadores indispensáveis para antecipar movimentos que impactem o ambiente de negócios, a segurança jurídica e os rumos institucionais do país.

Bruno Kazuhiro é formado em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e mestre em Ciência Política pelo IESP/Uerj.

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