O Brasil entra no mercado regulado de carbono

A criação de um mercado regulado de carbono representa uma mudança importante na forma como investidores enxergam o Brasil. Até aqui, o país já reunia atributos frequentemente apontados como diferenciais na economia de baixo carbono: uma matriz energética relativamente limpa, capacidade de geração de ativos ambientais e setores com potencial para reduzir emissões em larga escala. “O Brasil já era um grande produtor de créditos de carbono. O que faltava era um mercado regulado”, afirma Lúcia Aragão, sócia da área de Energia & Recursos Naturais do Vieira Rezende. Ao estabelecer regras permanentes para esse mercado, o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE) transforma esse potencial em uma estrutura capaz de ampliar oportunidades de investimento.

A regulamentação em curso ocupa posição central nesse processo. Mais do que um exercício técnico, ela é o mecanismo que permitirá aos investidores compreender quais setores estarão sujeitos ao sistema, quais atividades poderão se beneficiar dele e quais oportunidades poderão surgir à medida que o mercado amadurecer. Entre os segmentos incluídos na primeira etapa de monitoramento, relato e verificação de emissões (MRV) estão papel e celulose, ferro e aço, cimento, alumínio primário, exploração e produção de petróleo e gás, refino e transporte aéreo — setores que deverão desempenhar papel relevante tanto na redução de emissões quanto na formação da demanda por créditos de carbono.

A fase atual da regulamentação também cria uma janela particularmente interessante para investidores que acompanham o desenvolvimento desse mercado. Diferentemente de operações orientadas por retornos de curto prazo, projetos ligados à geração de créditos, reflorestamento, transição energética e descarbonização costumam ser estruturados ao longo de muitos anos. A definição gradual das regras oferece uma oportunidade para avaliar ativos, parceiros e modelos de negócio antes da entrada em operação plena do sistema. Os próximos anos devem combinar maior visibilidade sobre parâmetros, setores e metas com um período de adaptação anterior à aplicação integral das obrigações e penalidades previstas pelo mercado regulado. Mais do que um ponto de chegada, a regulamentação em curso funciona como uma etapa de construção de mercado e, justamente por isso, um momento relevante para quem busca identificar oportunidades desde os estágios iniciais de desenvolvimento. “Como a redução de emissões não será possível em todas as atividades, a obrigatoriedade de cumprimento das metas criará um mercado para produção e comercialização de créditos de carbono”, avalia Lúcia.

O amadurecimento do mercado regulado tende a ampliar o interesse por projetos brasileiros, mas também eleva o nível de sofisticação exigido dos investidores. Na avaliação de Aragão, a análise desses ativos envolve desafios que vão além das métricas ambientais e das estimativas de redução de emissões. “A due diligence de projetos de carbono pode exigir verificações fundiárias, regulatórias, reputacionais e de compliance ainda mais amplas do que em operações tradicionais”, afirma. À medida que o mercado ganha escala, a capacidade de navegar essa complexidade tende a se tornar um diferencial tão relevante quanto a qualidade dos próprios ativos ambientais.

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